David Figueiredo

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Textos


Capinadores Versus Serpentes


Em textos anteriores, discuti como pode haver ligações diretas entre informação/conhecimento (diferenças entre os vocábulos à parte, admito que ambos podem estar ligados à situação que se descreve a seguir) e tendências para comportamentos conservacionistas ou anticonservacionistas.
 
As serpentes (ou cobras, se assim preferem) pertencem ao conjunto formado pelos animais dos mais repudiados em todas as sociedades (não é à toa que a maior vilã da história que tem como cenário o Jardim do Éden é uma serpente!). Capinadores (assim conhecidos no norte do Brasil os profissionais especialistas na remoção de cobertura vegetal, em terrenos públicos e particulares) e serpentes têm uma relação relativamente próxima, pelas próprias características desta profissão. Observações cotidianas me levaram a crer que, para muitos destes profissionais, todas as serpentes são perigosamente peçonhentas e, por esta razão, devem ser exterminadas.
 
No município de Itaubal do Piririm (no interior do Amapá), participei de um estudo, já publicado, onde foram entrevistados dez capinadores que atuam na região. Todos do sexo masculino, com idade entre 22 e 67 anos, com até a 5ª série do ensino fundamental. A maioria aprendeu a capinação com os pais, tendo nesta atividade sua única fonte de renda.
 
Ao serem questionados sobre as serpentes, não deu outra: todos relacionaram-nas a expressões negativas como “bicho feroz”, “bicho brabo” e “bicho traiçoeiro”. Não é a toa que a maioria afirmou que mata todas as serpentes que cruzam seu caminhos, especialmente a cascavel (Crotalus durissus), jararaca (Bothrops sp.), surucuru (Lachesis muta), sucuri (Eunectes murinus) e jibóia (Boa constrictor).
 
Em meio a este cenário preocupante, eis que, novamente, o pensamento antropocêntrico surge, em meio ao discurso dos capinadores, como razão para a proteção de uma serpente, aparentemente comum na região. Falo da pepéua (Waglerophis merremii), consentida de nove dos dez capinadores entrevistados. Segundo estes, a pepéua se alimenta de outras serpentes, inclusive as peçonhentas, razão pela qual é a única espécie que não é alvo proposital das ferramentas de trabalho destes profissionais.
 
Então, reforço a existência de duas correntes antropocêntricas, neste meu pequeno texto: uma que leva à eliminação das serpentes por que estas representam perigo aos profissionais locais, e outra que leva a conservação de uma espécie que traz um benefício direto, sendo potencial aliada dos capinadores de Itaubal do Piririm.


David Figueiredo

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Publicado em 28/04/2010 às 20h53


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