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Textos
Quem tem medo do lobo mau?
Os grandes carnívoros terrestres sempre foram os animais mais temidos e odiados pelos seres humanos. Na África, por exemplo, leões que devoram homens são considerados demônios, e por esta razão, são perseguidos e mortos. A espécie Canis lupus (lobo) talvez seja um caso extremo: estes animais são, em geral, vistos pela maioria das populações como seres ligados ao mal, e representados sempre como os vilões de histórias infantis e as peças-chave de filmes de terror. No extremo oposto podem ser citadas as ovelhas (Ovis aries) que, além de serem consideradas dóceis e inofensivas, representam grande importância econômica ao homem em muitos países. Neste contexto, os lobos são considerados uma ameaça, e como as pessoas geralmente tendem a exterminar tudo aquilo que lhes é incômodo, aqueles que um dia deram origem à linha que levou ao “melhor amigo do homem” são incansavelmente perseguidos e mortos. Por trás de tudo isso, outros interesses antropocêntricos devem ser considerados. Em países como Noruega e Austrália, o conflito entre criadores de ovelhas e lobos é uma realidade angustiante. Como forma de minimizar as perdas de rebanho, milhares de lobos foram exterminados ao longo do século XX, o que levou à sua total extinção de diversas regiões do mundo, sendo atualmente considerada uma espécie vulnerável pela União Internacional Para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). Nestes países, ambientalistas acabam entrando no conflito, mas os lobos continuam a representar considerável causa de perda econômica para os ovinocultores (criadores de ovelhas).
 Figura 1: Na Austrália, a quilométrica cerca para excluir os dingos (Canis lupus dingo) das zonas de criação de ovelhas foi, até o século XIX, a maior construção humana do mundo! Além do interesse econômico, estudos apontam também a existência de vínculos emocionais com o rebanho como uma das razões mais poderosas para atitudes negativas do homem em direção aos lobos, tal como demonstram Bjerke e Kaltenborn (1999), quando avaliaram a relação entre o antropocentrismo e atitudes negativas em direção a estes carnívoros, e o ecocentrismo e atitudes positivas. O estudo teve como sujeitos criadores de ovelhas, gestores de áreas protegidas e biólogos da Noruega. Neste estudo, Bjerke e Kaltenborn (1999) encontraram correlações positivas entre o antropocentrismo e os paradigmas utilitarista (interesse apenas na utilidade direta das espécies), negativista (medo ou indiferença) e o paradigma de dominação (interesse no domínio e controle das espécies). Para Kellert (1996), esses três paradigmas representam ativadores de atitudes negativas contra os lobos. Correlações positivas foram encontradas entre os paradigmas ecologista (interesse no valor ecológico das espécies), moralista (oposição à crueldade e danos aos animais) e naturalista (interesse em atividades ao ar livre). Novamente, segundo Kellert (1996), esses três paradigmas tendem a desencadear atitudes positivas em direção aos lobos. Numa escala de 1 a 5, o índice de ecocentrismo de gestores de áreas protegidas e biólogos foi de 3.9, contra 3.7 dos ovinocultores, que obtiveram, por sua vez, o maior índice de antropocentrismo (2.9, contra 2.4 de biólogos e gestores de áreas protegidas). É incorreto dizer, com base nestes resultados, que criadores de ovelhas são adeptos da destruição ambiental, visto que endossam alguns valores ecocêntricos. Porém, agem de forma negativa diante dos lobos, o que não surpreende, devido à predação destes pelas ovelhas. Em outro estudo, agora de Skogen (2001), há a informação segundo a qual jovens noruegueses, de classe média e residentes na zona urbana, apóiam mais a preservação dos lobos quando comparados aos jovens das zonas rurais, os quais possuem fortes traços culturais da caça. Além disso, Bjerke e Kaltenborn (1999) sustentam que maior nível instrucional também se correlaciona positivamente com atitudes ecocêntricas aos lobos. No Brasil, a onça-pintada (Panthera onca) é a espécie que representa o papel do lobo mau nas disputas entre fazendeiros e ambientalistas. Por muitos anos, a onça foi brutalmente caçada para a “proteção” de animais domésticos e itens da pecuária, o que, paulatinamente, está levando ao seu desaparecimento das florestas brasileiras (as quais também estão desaparecendo, motivando-as a ir em busca de alimento nas fazendas mais próximas), visto ser um animal de ciclo reprodutivo lento. Porém, geralmente as propostas feitas para a problemática são radicais demais (ora, biocêntricas, endeusando a onça, ora antropocêntricas endeusando o homem).
 Figura 2: Ao mesmo tempo que representa perdas econômicas para muitas pessoas, para outras, o valor da onça-pintada se resume à sua pele.
Relembrando o trabalho de Bjerke e Kaltenborn (1999), concluo este texto fazendo o seguinte questionamento: Interesses econômicos à parte, se existe uma ligação emotiva entre ovinocultores e ovelhas, porque não criar vínculos emotivos entre ovinocultores e lobos, ou entre fazendeiros e onças-pintadas? Para muitos, um disparate...
SUGESTÕES DE LEITURA BJERKE, T.; KALTENBORN, B. P. The relationship of ecocentric and anthropocentric motives to attitudes toward large carnivores. Journal of Environmental Psychology, 19: 415-421, 1999.
BJERKE, T., ODEGARDSTUEN, T.S.; KALTENBORN, B.P. Attitudes toward animals among Norwegian adolescents. Antrozoos, 11: 79–86, 1998. SKOGEN, K. Who’s Afraid of the Big, Bad Wolf? Young People’s Responses to the Conflicts Over Large Carnivores in Eastern Norway. Rural Sociology 66(2), 2001.
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David Figueiredo |
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Publicado em 02/11/2009 às 21h42
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