David Figueiredo

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Conhecimentos Populares Sobre Insetos


A classe Insecta, dentro do que propõe a ciência ocidental, compreende mais de 900.000 espécies de invertebrados, como gafanhotos (Ordem Orthoptera), moscas (Ordem diptera), borboletas (Lepidoptera), besouros (Coleoptera), abelhas (Hymenoptera) e seres relacionados. Estimativas mais exageradas propõem a existência de 100 milhões de espécies de insetos no mundo, o que supera, de longe, todos os outros grupos de seres vivos juntos.


Figura 1: Representação de alguns grupos de insetos (Classe Insecta)

O insetos são animais que condicionam no homem tanto atitudes negativas quanto positivas, dependendo do grupo considerado e de sua utilidade ou interferência na vida humana. Estas atitudes são condicionadas por conhecimentos acumulados pelo Homem ao longo de sua história relacional com o grupo. Tais atitudes por sua vez, condicionam comportamentos. O estudo da cosmovisão e conhecimentos populares acerca dos insetos (de domínio da Etnoentomologia) é o primeiro passo nesta cadeia de investigação científica.

Estudos acerca de conhecimentos etnoentomológicos são relevantes por várias razões, como para a própria proteção (preservação ou conservação) da biodiversidade de insetos, passando pelas suas formas de uso na alimentação, na medicina popular, em rituais religiosos e até mesmo pelo registro de mitos e lendas em torno destes animais.

Paralelamente à existência dos sistemas de classificação de insetos da ciência ocidental, diferentes povos também elaboraram seus próprios sistemas, com critérios alternativos. Por esta razão, o que se reconhece como inseto no âmbito da biologia, pode não ser reconhecido dentro dos sistemas populares de cognição e classificação.

Por exemplo, ao longo de um estudo realizado na comunidade de Igarapé da Fortaleza, localizada em Macapá (AP), 30 moradores mencionaram 14 morfotipos de insetos. Obviamente, alguns animais mencionados não são categorizadas como Insetos pela taxonomia da biologia, mas o são na etnotaxonomia local, como aranhas, escorpiões, cobras e ratos. A imagem que os populares têm dos insetos é a de animais perseguidores, pragas, causadores de doenças e perigosos. Talvez isso motive a classificação de outros animais igualmente considerados repugnantes (como aranhas, cobras e ratos) como insetos.



Figura 2- Ratos domésticos (Mus musculus): Mamíferos roedores na classificação zoológica; na classificação local, insetos!

Assim, não é de se estranhar que para mais de 20% dos populares os insetos não sejam considerados importantes e, por isso, deveriam ser exterminados, como mosquitos, baratas e moscas, tidos como exemplos extremos de animais "perseguidores". A princípio, trata-se de uma atitude previsível. Quem, da cidade, não gostaria que seres como os vírus HIV e H1N1 e cia fossem exterminados? Em situação oposta estão as borboletas e sararás (um crustáceo diminuto da ordem Decapoda), tidos como "insetos" carismáticos pela população e que, por esta razão, deveriam ser protegidos.



Figura 3: Barata (Periplaneta americana), um dos insetos mais repudiados pela população local!

Estudos como este, enfocando cosmovisões e conhecimentos populares sobre insetos, podem revelar conhecimentos condicionadores de atitudes negativas em relação a estes animais. Isso é evidenciado a partir da construção do domínio "insetos" pelos moradores da comunidade do Igarapé da Fortaleza, domínio este diretamente relacionado a termos que remetem repulsa. Trabalhos educativos no sentido de expor à população a real importância dos insetos, como grupo, seriam bem-vindos na comunidade.

Sugestões de Leitura:

COSTA-NETO, E. M.; PACHECO, J. M. A construção do domínio etnozoológico "inseto" pelos moradores do povoado de Pedra Branca, Santa Terezinha, Estado da Bahia. Acta Scientiarium,  26 (1): 81-90, 2004.

COSTA-NETO, E. M.; RAMOS-ELORDUY, J; PINO, J. E. Los Insectos Medicinales de Brasil: Primeros Resultados. Boletín Sociedad Entomológica Aragonesa, 38: 395-414, 2006.

COSTA-NETO, E. M. RAMOS-ELORDUY, J. Los Insectos Comestibles de Brasil: Etnicidad, Diversidad e importancia en la alimentación. Boletin Sociedad Entomológica Aragonesa, 38: 423-442, 2006.


David Figueiredo

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Publicado em 30/05/2009 às 22h56


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